OrigemNews

ÁreaRestrita



Auditorias


NewsLetter

Empresa se especializa em recuperar obras de arte roubadas

03/10/2013

Pela manhã bem cedo no dia 11 de maio de 1987, quebraram as portas de vidro do Museu de Arte Moderna, Estocolmo, Suécia, tiraram um Matisse da parede e fugiram.

Bastou ter ousadia e uma marreta.

O paradeiro da pintura "Le Jardin" permaneceu um mistério até a obra ser achada no ano passado e ter feito uma viagem de comemoração na volta para casa, em janeiro.

Porém, a polícia não desempenhou papel nenhum. O retorno foi facilitado pela Art Loss Register, empresa londrina que nas duas últimas décadas cresceu em um setor pouco notado, mas cada vez mais uma parte integral da investigação de arte ao redor do mundo.

Fruto da imaginação de Julian Radcliffe, ex-consultor de risco com formação em Oxford que disse ter espionado para a inteligência britânica, a Register ajuda a preencher um vácuo: obras de arte no valor de bilhões de dólares são roubadas todo ano, segundo uma estimativa do FBI, mas a polícia tem poucos recursos para priorizar sua procura.

Para Radcliffe, cuja outra empresa ajuda a recuperar equipamentos de construção roubados, essa foi uma oportunidade natural. Desde que abriu as portas 22 anos atrás, a Register criou um dos bancos de dados mais extensos de arte roubada do mundo, permitindo a recuperação de US$ 250 milhões em peças, ganhando comissões de seguradoras e vítimas de roubo.

Durante o processo, a empresa atraiu críticas segundo as quais suas táticas inflexíveis pressionam os limites éticos e, por vezes, legais. Mesmo assim, a Register continua a contar com agentes da manutenção da ordem pública entre seus defensores.

— Para mim, eles são uma ferramenta muito importante e útil — afirmou Mark Fishstein, policial especializado em arte do Departamento de Polícia da Cidade de Nova York.

A empresa de Radcliffe atua nos recessos sombrios do mundo da arte onde a prevalência do roubo, falsificação e obras de procedência obscura deram origem a muitas empresas as quais prometem auxiliar os clientes a navegar por esse mercado lucrativo, mas em grande medida desregulamentado.

Porém, para a Register, apesar do nome que parece oficial e do papel decisivo como monitor, o lucro não veio fácil e seu futuro parece cada vez mais nebuloso, ameaçando um protagonista importante na recuperação de obras de arte roubadas.

Radcliffe disse esperar que a Register equilibrasse as finanças neste ano, mas que perdeu dinheiro nos últimos seis e que somente não afundou graças às suas injeções de dinheiro. Entre os incidentes que provocaram críticas, a Register orientou de forma equivocada um cliente que queria verificar a procedência de uma pintura antes de comprar, afirmando que era legítima quando na verdade era roubada, de tal forma que ele a comprou e, inconscientemente, ajudou a firma a ganhar uma comissão pela sua recuperação.

A companhia é conhecida por pagar a intermediários e informantes por pistas sobre obras roubadas, prática que incomoda algumas pessoas da manutenção da ordem pública, alegando que isso pode estimular roubos. E a empresa muitas vezes se comporta como um caçador de recompensas, cobrando comissões de até 20% do valor da obra pela sua devolução.

— Eles atendem a um propósito, sendo o único banco de dados privado — disse Robert K. Wittman, investigador particular de arte que antes chefiou a Equipe de Crimes de Arte do FBI.

— O problema é quando ultrapassam esse papel e tentam agir como se fossem a polícia.

Poucos concorrentes

Poucos países, como a Itália, dão alta prioridade ao roubo de arte, mas são a exceção.

As cidades de Nova Iorque e Los Angeles, entroncamentos do comércio de arte, têm um detetive dedicado aos crimes de arte. O FBI designou 14 agentes com treinamento especial para investigar crimes no setor, embora a maioria também tenha outras funções. A unidade de artes e antiguidades da Scotland Yard tem três agentes.

— Não é um crime violento. Não existem vítimas, pelo menos não as que o público consideraria vítimas. Boa parte da perda é coberta pelo seguro — disse Saskia Hufnagel, pesquisadora do Conselho de Pesquisa Australiano do Centro de Excelência em Polícia e Segurança.

As autoridades também têm dificuldades com os dados limitados e incompletos.

O banco de dados gerenciado pela Scotland Yard lista aproximadamente 57,5 mil objetos roubados. O banco de dados de peças roubadas da Interpol gira em torno de 40 mil obras. O banco de dados do FBI soma menos de 8 mil objetos em parte porque a agência conta com a polícia local para preencher as lacunas.

— Não é um banco de dados completo. Nós recebemos o que eles decidem nos enviar — disse Bonnie Magness-Gardiner, responsável pelo programa de arte roubada do FBI.

Cada banco de dados lista itens baseados em protocolos individuais e a maioria das agências policias não se comunica com as outras; assim, quem está verificando se uma obra foi roubada teria de falar com várias agências.

A Register, em contrapartida, informa que seu banco de dados inclui mais de 350 mil pelas roubadas, saqueadas ou desaparecidas. Além de uma equipe interna com cerca de 10 pessoas, a empresa usa uma firma indiana para vasculhar o mundo em busca de correspondentes entre o banco de dados e artigos à venda em leilões e feiras de arte.

As vítimas de roubo pagam para listar seus itens na Register, que também cobra de marchands, colecionadores e seguradoras interessadas em consultar o banco de dados para saber se uma peça está limpa.

Para a polícia, os recursos da Register são claramente úteis. A polícia pode consultar gratuitamente o banco de dados e a empresa ajudou a treinar a Equipe de Crimes de Arte do FBI.

— Se eu fosse à Art Loss Register e perguntasse se eles têm alguma informação sobre certa pintura, eles me entregariam 30 documentos. Eles teriam tudo isso, e o policial em patrulha não saberia nem sequer como perguntar — disse James McAndrew, ex-agente federal que rastreava arte roubada.

Detetives particulares e lucros

Aos 65 anos, Radcliffe é uma figura alta, pálida e que parece uma alma penada, com queda pela teatralidade de capa e espada. Por exemplo, pressionado no ano passado a divulgar mais a respeito de um caso nos Bálcãs, ele falou:

— Talvez a resposta seja levá-lo por aí um dia e apresentá-lo aos interessados para ver no que dá. —

Depois, ele riu sardonicamente.

Certamente seus esforços e os de outros levaram a um bom número de recuperações bem-sucedidas da Register, incluindo o regresso de um valioso Cézanne, uma das sete obras roubadas de uma casa em Stockbridge, Massachusetts, em 1978.

A pintura foi encontrada mais de 20 anos mais tarde depois que o Lloyd's de Londres entrou em contato com a Register com a pergunta: uma empresa panamenha tentava fazer o seguro de um quadro de Cézanne para transporte. Era roubado?

O banco de dados informou que sim, então Radcliffe abordou o proprietário, Michael Bakwin. Sua obra fora localizada. Ele estava disposto a pagar uma comissão pela recuperação?

Bakwin aceitou, e Radcliffe negociou um acordo com a firma panamenha. Bakwin recebeu seu Cézanne em 1999. Ele vendeu a obra, "Jarro e Frutas", poucos meses depois na Sotheby's por US$ 29,3 milhões. A Register embolsou uma comissão de US$ 1,6 milhão.

Anos depois, quando algumas das outras obras apareceram no mercado, o vendedor foi desmascarado como Robert M. Mardirosian, advogado aposentado de Massachusetts, que chegou a representar o ladrão e ficou com a posse das pinturas quando ele foi morto em 1979. A seguir, segundo os registros do tribunal, ele criou a empresa panamenha de fachada.

Em 2008, Mardirosian foi condenado por posse de propriedade roubada e forçado a devolver os quadros.

Radcliffe admite que para executar tal feito recorreu a um artifício. Quando as pinturas adicionais apareceram e a Sotheby's lhe perguntou se eram roubadas, ele mentiu, dizendo que não. Assim, elas puderam ser despachadas para a Sotheby's de Londres, onde foram confiscadas.

Radcliffe afirmou só ter mentido duas vezes sobre pinturas serem roubadas ou não, e não pede desculpas, comparando à tática da polícia confundir um suspeito durante a investigação.

— Quando se está envolvido nesse tipo de coisa, você não diz para o outro que está mentindo.

Fonte: zero hora

 Certificações